Aprender a viver

Elas nasceram com HIV e aprenderam a conviver com o vírus. Veja o relato de quatros jovens publicado pelo “Clarin”

03/05/2016 - 19h05
Foto publicada pelo Clarin. Da esq. para a dir.: Sofia Ocampo, Nadia Tévez, Evelyn Lucero e Tamara Sosa
Nesta segunda-feira (2), o periódico argentino “Clarin”, publicou a história de quatro jovens que chegaram ao mundo no momento mais crítico da epidemia, nasceram com o vírus HIV e aprenderam a conviver com ele. Leia abaixo na integra:
O cabelo chegava até a cintura. Ela tinha muito cabelo e era preciso ter paciência para penteá-lo. Era um momento que mãe e filha passavam todos os dias em frente ao espelho. Foi esse momento que a mãe de Nádia escolheu para contar: "Você tem HIV". E Nádia sentiu que de repente tudo fazia sentido: as 16 pílulas diárias, as análises, os médicos, as internações, os dias e semanas sem ir ao colégio. Tudo. Mas era ela que tinha HIV? Isso não era uma coisa que os filhos é que contam para os pais? Ela nem sequer tinha namorado e nem sabia o que era beijar. Nádia tinha 13 anos. E a única coisa que ela conseguiu fazer foi gritar "eu vou morrer".
Vivendo com HIV
Nádia Tévez não morreu. Ela tem 24 anos e o vírus, embora continue presente, é indetectável. E ela desenvolveu um humor blindado: "Imagina, ainda por cima eu tinha nascido com estrabismo! Bem que eu notava que eu não era muito normal".
Nádia nasceu em uma época em que ter HIV era quase uma sentença de morte. Naquela época, as mulheres portadoras do vírus não podiam ficar grávidas. Engravidar significava condenar os filhos a nascer com o vírus. E foi o que aconteceu com a mãe de Nádia. Ela ficou sabendo que era portadora de HIV quando estava prestes a dar à luz. Uma transfusão de sangue que tinha recebido meses antes havia infectado ambas -- ela e seu bebê. Os médicos deram a Nádia seis meses de vida.
Mas isso já passou e hoje Nádia faz parte de Arribarte, um grupo de teatro para jovens impulsionado pela Fundação Huésped. A maioria dos participantes tem HIV. Outros são familiares de pacientes e amigos.
Arribarte
Sofía Ocampo, Evelyn Lucero e Tamara Sosa também nasceram com HIV. Elas têm vinte e poucos anos. Assim como Nádia, elas cresceram com mamadeiras com gosto de remédio e comprimidos misturados no doce de leite. O que significa para elas ter HIV? Elas não sabem. Só levantam os ombros. Não sabem como é ter outra vida, uma vida sem o vírus.
Arribarte não tem um funcionamento contínuo, mas cumpriu o primeiro objetivo: que elas não se sentissem mais sozinhas. "Você sempre acha que isso só acontece com você", diz Tamara. Como as outras jovens, ela é a única dos irmãos a ter HIV. E como todas, ela cresceu escutando uma frase: "Toma o remédio senão você vai morrer". Sua mãe morreu quando ela tinha três anos. E um ano depois morreu seu pai. Ela tem seis irmãos.
Saindo das sombras
A mãe de Evelyn também foi infectada em uma transfusão de sangue. Morreu quando ela tinha quatro anos. Evelyn, o pai e a irmã se mudaram para a província de Jujuy. "Não diga nada, não conte nada", lhe repetiam. "Eu nunca tive muita consciência do que era e em uma província tão conservadora eu não podia falar muito. Só comecei a entender quando conheci as outras meninas e aí eu percebi que não estava sozinha e comecei a me informar sobre o que eu tinha. A informação te fortalece".
E como para qualquer adolescente a cama é um terreno cheio de medos e dúvidas, para elas foi muito mais. É o que Nadia diz: "Você começa a tua sexualidade sentindo que você é uma bomba de tempo. Ter HIV é uma responsabilidade muito grande e às vezes cansa ter que cuidar sempre do outro".
A mãe da Sofia usou drogas até que as análises lhe deram a pior notícia: ela e a filha tinham HIV e hepatite C. A infância de Sofia se passou em uma casa cheia de camisinhas e com uma mãe que se tornou militante. "Ela me deu tanto amor que eu não posso reclamar de nada. Ela sempre me defendeu e me cuidou".
Elas chegaram neste mundo no momento mais crítico da epidemia. Quando contam o que viveram dão risada. Ao contrário de suas mães, elas sabem que o vírus acaba nelas e que elas poderão ter filhos sem medo.

Fonte : Clarin 
Reprodução Agência de Noticias da Aids :http://agenciaaids.com.br/home/noticias/noticia_detalhe/24806#.VykgFfkrLIU